Topo Geral
Patrimônio

Polêmica em torno do Teatro Carlos Jehovah reabre discussão sobre prédios históricos da cidade

Na última semana, foi veiculada a possibilidade de demolição do teatro e do mercado de artesanato para dar lugar a um shopping popular. Na internet, artistas se manifestaram contra

21/10/2021 15h14Atualizado há 2 meses
Por: Ailton Fernandes
473

No coração de Vitória da Conquista, o Teatro Municipal Carlos Jehovah já foi palco para artistas que estavam aprendendo, mas também para nomes consagrados internacionalmente. Desde 1º de maio de 1982, quando foi inaugurado, o espaço é um dos mais importantes para a cultura local, principalmente para o teatro, a música e o artesanato, por conta do Mercado Municipal.

Na última semana, uma ameaça a esse patrimônio veio à tona na cidade, reabrindo um tema que precisa voltar a ser discutido na cidade: o tombamento de prédios históricos e a instituição dos patrimônios materiais.

O tombamento de um imóvel é um instrumento jurídico para a proteção de bens contra a depredação, a desvalorização ou o esquecimento. “O tombamento tem a ver com a proteção da memória, com o reconhecimento da sua importância prática nas políticas públicas, e aplica-se a todo e qualquer bem de interesse cultural ou ambiental”, explica o historiador Afonso Silvestre, que integrou uma comissão multidisciplinar instituída pela Secretaria Municipal de Cultura em parceria com o Conselho Municipal de Cultura para trabalhar especificamente com os processos de tombamentos.

Afonso lembra que, em abril desse ano, com informações sobre uma possível reforma ou demolição do espaço, o Conselho foi procurado pelos artesãos e artesãs que trabalham no Mercado Municipal. “O pleito deles era justamente entender o que estava acontecendo e, infelizmente, o Conselho não conseguiu ajudar muito, pois não houve diálogo com o poder executivo”, recorda.

O projeto de reforma, que até o momento não foi apresentado pela Prefeitura, chegou a ser inicialmente tratado com os comerciantes em reunião no dia 15 de março, com a presença da Defesa Civil e dos secretários Luís Paulo Santos e Claudio Cardoso. 

“A Prefeitura já está desenvolvendo um projeto de reforma, que fará adequações nas áreas elétrica e hidráulica, como também a substituição do telhado, solicitadas pela Defesa Civil e pelo Corpo de Bombeiros”, divulgou o site da Prefeitura.

“Da forma que se encontra a infraestrutura do prédio e também a parte elétrica, e com os últimos agravamentos, coloca-se em risco não só os ocupantes daquele espaço, os empreendedores, mas também os frequentadores. Então, buscar uma saída rápida para essa situação é o papel do Município”, afirmou o então secretário de Trabalho, Renda e Desenvolvimento Econômico, Cláudio Cardoso.

Após essa reunião, no dia 25 de março, a prefeita Sheila Lemos esteve no Mercado de Artesanato com uma comissão de vereadores para “fiscalizar as condições estruturais do prédio, que apresenta problemas no telhado e nas redes elétrica e hidráulica, fazendo-se necessária uma reforma urgente para evitar danos físicos e materiais aos artesãos”.

Os comerciantes demonstraram preocupação com a mudança repentina para outro lugar e aproveitaram para assegurar, junto à prefeita, o retorno ao espaço após a reforma. Após ouvir os permissionários e os vereadores, a prefeita disse que recebeu um laudo da Defesa Civil condenando a estrutura.

“A prefeitura vai aguardar o laudo técnico que será apresentado pelos permissionários para, junto com a Câmara, decidir o que fazer. A Câmara formou uma comissão para tratar desse assunto e vamos dialogar juntos até encontrar uma solução viável para todos”, afirmou Sheila, durante a visita.

Fotos: (1) Reunião com Defesa Civil e secretários; (2) visita da prefeita com vereadores; e (3) reunião com o Conselho Municipal de Cultura

Entenda o que aconteceu - Na segunda-feira, 11 de outubro, ao vivo, na rádio UP, o repórter Ricardo Gordo afirmou que existe a possibilidade da Prefeitura demolir o prédio, onde também está o Mercado de Artesanato, para construir um novo shopping popular.

Pelo WhatsApp, ao apresentador do programa UP Notícias, Jânio Freitas, a prefeita Sheila Lemos disse que “não procede a informação. Lá estamos preparando um projeto para um shopping popular que será avaliado com os permissionários e a comissão de vereadores, mas não está nada pronto ainda”.

Na rádio, o repórter também afirmou que existe um laudo de condenação do CREA, o que justificaria a demolição. Questionada, a entidade informou que a responsabilidade por um laudo seria da Defesa Civil do município.

Na última terça (19), o Conquista de Fato entrou em contato com a Secretaria Municipal de Comunicação questionando se existe algum laudo de condenação ou de vistoria recente, realizada pela Defesa Civil, mas não houve retorno.

Defesa do patrimônio e da memória - A possibilidade da demolição gerou manifestações nas redes sociais. Artistas que já se apresentaram no teatro e o público fizeram postagens em defesa do espaço. 

“Com grande descontentamento que repudiamos a falta de sensibilidade e respeito presente nessa proposta que se torna minimamente absurda quando a grande necessidade é resguardar e produzir ações e melhorias para o local”, publicou o grupo Apodio. “Precisamos nos organizar contra a demolição desse lugar que é símbolo da resistência artística da nossa cidade”, comentou o cantor Lucas Gerbazi.

A atriz Adriana Amorim também se manifestou: “demolir um teatro, demolir um espaço cultural, é um absurdo. Minha história de teatro aqui em Vitória da Conquista passa por esse equipamento cultural. Existe um pouco de cada um de nós naquele lugar, não é assim que se trata a memória, a população, os artistas”.

Na Câmara de Vereadores - Na sessão da última sexta-feira (15), o vereador Alexandre Xandó (PT), que integra o Conselho Municipal de Cultura, apresentou requerimento solicitando à Prefeitura o projeto de intervenção para o local e questionando se os comerciantes e artesãos que ocupam o mercado continuarão após a realização da possível obra.

A solicitação de informações causou desconforto em parte da bancada de situação. O líder da prefeita na Câmara, o vereador Chico Estrela (PTC) chegou a dizer que o requerimento era inoportuno. “Eu acredito que é um requerimento fora de propósito. Se toda reforma que a Prefeitura for fazer em um patrimônio público, ela ter que informar a esta Casa o que vai fazer, o projeto, ela não vai trabalhar”, disse.

Apesar dos votos contrários dos vereadores Chico Estrela, Marcos Vinícius, Augusto Cândido, Orlando Filho e Subtenente Muniz, o requerimento foi aprovado.

A reforma do Teatro Carlos Jehovah e do Mercado de Artesanato foram promessas da campanha do ex-prefeito Herzem Gusmão, desde 2016. No programa de governo apresentado à Justiça Eleitoral no ano passado, consta a “modernização e dinamização dos espaços”.

Fechado desde o início da pandemia, as atividades do Teatro ainda não retornaram. Porém, a realização de eventos com venda de ingressos está autorizada pela Prefeitura desde 15 de setembro.

Até o momento, nenhuma nota foi publicada no site oficial ou nas redes sociais da Prefeitura a respeito do assunto.