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Poesia

Com minhas próprias mãos

Sonhar ou despertar? Poema intenso de Marco Jardim

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Multi(Versos)Fotos, paisagens, gentes e memórias escritas na poesia de Marco Jardim (@marcoajardim no Instagram)

27/05/2024 10h27Atualizado há 4 semanas
Por: Redação

O que me apraz? Minhas mãos.
Untadas com óleo de alecrim e prazer de energia sagrada, canalizada.
É um consolo, um amanhecer com céu azulejado, sal do mar chupando o doce dos gomos do romã.
Seja lá a hora que for, noitinha ou pós-noitada, desnudo as roupas de cima a baixo, deito o corpo, passo a pele na extensão dos lençóis, sinto o calor das partes sensíveis, como um gozo sem cópula, um sonho sem tempo.
É o mel de mim mesmo, tecido cru num mundo sem rigor.
Qual dos estorvos é o maior da vida? Sem mover as pestanas da manhã: acordar.
Há algo de errado no deleite do sonho suspendido.
É como sobressalto seguido de suplício, coito solitário interrompido.
Com as palavras escorrendo do meu corpo, sou como um flâneur acima da planície.
Levanto o bom ânimo, ergo o dorso, estendo, expando.
Certos fragmentos do corpo permanecem rijos, como a lembrar que sonhar causa satisfação.
Para vergar certas partes em névoa, só jorro de água fria, banho aromatizado, rio correndo os poros.
Desperto assim, com certa distração, estruturas firmes, dilatadas, restos de polução, raios de sol que nascem em mim.
Sonho com campos orvalhados e rostos em transe.
Digo "bom dia" com olhos semicerrados, "boa morte" aos desencarnados.
Penso as coisas vãs, resisto, como as manhãs.
Quanto mais tempo em dilação, mais intensa a fluência.
Acordar é sempre esta detumescência.
"Olha o frescor do dia!", escuto ao longe. Eu, na dureza da forma, apoio-me na gravidade.
Por favor, não me tirem o vasodilatador do amor em validade.
É ele que me desloca em júbilo, céu do jato voluntário.
Regozijo dos sentidos adormecidos.
Sonhos lúbricos são como fim de tarde numa plácida embarcação.
Contentamento nu.
Eu sei que vou acordar para escutar os despertadores intermitentes.
Pois, então, que durmam-me novamente!
É o prenúncio do inverno que me estira à cama.
Todo o resto, além das partes do corpo, parece não sentir.
Há algo mais íntimo do que dormir?
Entre o real e o sonhar, uma volta ao mundo com minhas próprias mãos.
Ao que se justifica, pois, porque dormir provoca excitação.

 

(Marco Jardim)

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