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BBB 22 e o desabafo de uma mulher preta

A solidão da mulher preta, experiências que se encontram e o BBB 22.

Sem tabus

Sem tabusReflexões e desabafos de Lu Rosário sobre a vida, amores e despudores.

27/01/2022 20h38
Por: Redação
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Atualmente, com o BBB 22, fala-se muito sobre as investidas da participante Natália, enquanto mulher preta e com vitiligo, em relação à Lucas - outro confinado no reality. Ambos ficaram amigos e ele disse a ela que achava que não queria ficar com ninguém da casa. Logo depois, na Festa do Líder, ele ficou com Eslovênia – que é uma mulher branca e possui uma beleza padrão, ou seja, mais aceitável socialmente. Nesse momento, você percebe quem era o “ninguém” ao qual ele se referia e, assim, retoma toda a sua história em que ser preterida sempre há de doer. Lidar com a rejeição não é fácil.

Como uma mulher preta que sou, tive que me acostumar com o fato de que provavelmente vou terminar a minha vida sem um parceiro. Tive também que entender que, dentro dessa sociedade, eu não sou considerada alguém para se ostentar ter ao lado e tive que compreender (ainda que indignada) que muitos vão querer ficar comigo apenas para saber se corresponde às suas expectativas. Muitos também vão dizer “fica entre nós” ou “não fala nada pra ninguém que a gente tá ficando” porque parece ser indigno ficar com alguma preta. 

E, no final, ele sempre vai se passar por uma de macho massa, que fica com qualquer mulher sem observar cor e que só não rolou namorar com uma preta porque não daria certo, como se faltasse algo a mais especificamente nas pretas com quem ele já se deitou. No final, ele vai justificar que o fato de ficar com mulheres pretas é só uma questão de atração e o fato de ficar escondido é só porque não é nada sério.

Mas a preta que não rola a atratividade nem a química certa para um namoro, às vezes é a amiga perfeita porque ouve, aconselha, bate resenha e dá o ombro. Enfim, não pode passar disso: de uma amiga e de umas ficadas às escondidas a la época da Casa Grande. Mas tudo bem. Para não ficar sozinha, a gente entende.

A gente diz que entende. No final, a gente sofre, se olha no espelho e procura todos os defeitos. A gente deita a cabeça no travesseiro e se questiona onde está o erro e, assim, tenta mudar as atitudes, a roupa e o cabelo. Porém, nada disso resolve porque a gente pode até mudar tudo, menos uma coisa – o fato de sermos pretas. Nosso sinônimo não passa de pele quente, cor de brasa, cor de jambo, cor de cravo e canela (graças a Jorge Amado!).

Sobre nossas lágrimas, ninguém está preocupado. Pelo contrário, como fizeram com Natália, dizem que somos dramáticas e estamos surtadas. Diriam alguns que também estamos problematizando demais e que o fato de pretas estarem sempre sozinhas é coincidência. Tudo bem, coincidência. Quando a gente chora por mais um relacionamento que não deu certo, também vão dizer: Ela está chorando por macho. Essas, inclusive, praticamente foram as palavras de Naiara Azevedo para o choro de Natália. Ninguém entende os percursos e as feridas de uma mulher pretas, cujas situações pontuais funcionam como gatilhos.

Que essa coincidência entre mulheres pretas nos una e nos fortaleça. Que saibamos, com toda certeza, que o fato de não sermos assumidas ou nos tornarmos namoradas não é culpa nossa. Que a nossa autoestima não caia por conta de uma escrotice social. Que somos interessantes, lindas e maravilhosas, sim. Que não precisamos ser perfeitas na cama por sermos pretas e que nossas genitálias escuras são lindas.

Mulher preta, trabalhe-se diariamente isso e não se permita reduzir. Não seja a escolha. Faça escolhas.

PS: Esse texto foi escrito em setembro de 2019 e adaptado para esse ano. As palavras e os sentimentos são os mesmos. O chamado para o olhar-se para dentro, também.