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Covid-19

Médica do teleatendimento da Prefeitura receita “kit Covid” a paciente

Mãe não conseguiu atendimento no gripário municipal para a filha e foi orientada a entrar em contato pelo WhatsApp

26/01/2022 13h10Atualizado há 4 meses
Por: Ailton Fernandes
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Ivermectina foi um dos medicamentos receitados no teleatendimento
Ivermectina foi um dos medicamentos receitados no teleatendimento

Na semana passada, em Vitória da Conquista, a mãe de uma menina de 14 anos com sintomas gripais e com suspeita de estar com a Covid, tentou ser atendida no gripário municipal e agendar o teste para elas e seus familiares, mas não conseguiu.

“Minha filha, já vacinada com as duas doses, teve contato com alguém que testou positivo. Já estava há três dias com sintomas, dores no corpo, dor de garganta e enjôo. Estamos em casa, em cinco pessoas, duas com sintomas, isoladas”, relatou a mãe.

Orientada a entrar em contato por um número no WhatsApp, ela foi surpreendida pelo retorno dado após relatar os sintomas e a dificuldade para ser atendida:

“Dê ivermectina 2 Comp ao dia por 3 dias; zinco 30 mg quelado de 12/12 horas por 10 dias; azitromicina 500 mg 1 ao dia após almoço por 5 dias”, respondeu. “Hidratar bastante e repouso”, completou.

Ivermectina e azitromicina fazem parte da lista de medicamentos do chamado “kit Covid”, já considerados ineficientes para o tratamento da doença.

Após a mensagem com a lista de medicamentos, a médica não continuou o atendimento, não enviou receita, como também não perguntou se a paciente tinha algum tipo de comorbidade.

“Para além da prescrição do kit, me senti desrespeitada com o desinteresse e o descaso do atendimento que ela sequer concluiu”, diz a mãe. “Também fizemos o cadastro no site da Prefeitura, desde quinta-feira (20) pela manhã, para fazer o teste e eles ainda não entraram em contato”, acrescenta.

Em resposta enviada ao Conquista de Fato, a Prefeitura Municipal respondeu que "não existe nenhum tipo de protocolo padrão na prescrição médica da rede municipal de saúde para o tratamento de pacientes com diagnóstico confirmado para Covid-19. A secretaria não determina a conduta do profissional, que tem a autonomia para realizar a sua conduta, não cabendo, assim, à SMS interferir na relação do médico com o paciente".

O kit - No último mês de julho, o Ministério da Saúde confirmou, em documento enviado para a CPI da Covid, que os medicamentos cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina não devem ser utilizados em pacientes por conta da Covid-19. Esse grupo de medicamentos ficou conhecido como “kit Covid” e são os mesmos usados no chamado “tratamento precoce”.

Emitido pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do Sistema de Saúde (Conitec), o documento afirma que os medicamentos do “kit Covid” foram testados e não mostraram nenhum tipo de benefício clínico para os pacientes com Covid-19. “Não mostraram benefícios clínicos na população de pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados”.

São citados os medicamentos hidroxicloroquina, cloroquina, lopinavir/ritonavir, azitromicina, colchicina e plasma convalescente. O documento afirma ainda que não há evidências que justifiquem o uso da ivermectina e da associação casirivimabe e imdevimabe nos pacientes internados por conta da Covid-19.

Em janeiro do ano passado, em ofício, o Conselho Nacional de Saúde solicitou ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a revogação de qualquer instrumento (Nota Técnica, Nota Informativa, Orientações, Protocolos ou Ofícios) que indicasse o tratamento precoce com a aplicação de medicamentos cuja eficácia e segurança para a Covid-19 não está estabelecida cientificamente e nem aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Já esse ano, no último dia 21, o Ministério da Saúde rejeitou, em portarias publicadas no Diário Oficial da União (DOU), as diretrizes da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao Sistema Único de Saúde (Conitec) de não utilização de medicamentos do chamado "kit Covid" para tratamento em pacientes do SUS infectados com a Covid-19.

Em nota técnica, o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do Ministério, Hélio Angotti Neto, afirma que “em termos de autonomia, visando sempre ao bem do paciente e ao aproveitamento da oportunidade de salvar vidas que é imperativo na prática médica profissional, há que se falar em uma cooperação de princípios no âmbito tanto do tratamento ambulatorial — que não é sinônimo de tratamento precoce na metodologia adotada na formulação das Diretrizes — quanto do hospitalar”. Ele defendeu a manutenção das substâncias a partir do "princípio bioético da beneficência”.